Grupo de Jovens no Campo Limpo Discute Saúde e Bem-Estar
Arthur Xavier, de 15 anos, se sente culpado quando come alimentos ultraprocessados, como bolachas e salgadinhos. No entanto, ele reconhece que, como muitos adolescentes, é difícil resistir a essas opções. Arthur tem consciência da importância de uma alimentação saudável, que considera fundamental para o bem-estar.
Além disso, ele está bem informado sobre questões de saúde, como infecções sexualmente transmissíveis, sexualidade saudável e os riscos do alcoolismo. Essas discussões, que seus amigos podem achar chatas, são relevantes para ele e para outros 40 adolescentes que participam do projeto “Chega Junto”, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo.
Esse projeto, promovido pelo Hospital Israelita Albert Einstein, tem como objetivo acercar os jovens de temas relacionados à saúde. Os participantes têm idades entre 9 e 19 anos e se reúnem semanalmente para conversar sobre saúde de forma acessível e conectada à linguagem dos adolescentes. Em Paraisópolis, a iniciativa resultou em um aumento de 36% no número de jovens que visitam as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e uma elevação de 10% na taxa de vacinação contra o HPV, um ano após o início do projeto.
Arthur e seus colegas, que vêm de contextos de baixa renda, têm pouca experiência com serviços de saúde. Para Henrique Augusto Cuenga, de 13 anos, saúde significa “não estar doente”, uma visão que reflete a falta de informação acessível sobre cuidados preventivos.
O projeto foi criado em resposta à baixa presença de adolescentes nas UBS, locais que focam na saúde preventiva e o tratamento de doenças leves. A coordenadora de prática assistencial da Rede Einstein, Andréa Christina Borella, explica que muitos jovens têm dificuldades de acesso por não receberem orientação em casa ou pela falta de tempo dos pais para acompanhá-los. Além disso, a linguagem dos profissionais de saúde muitas vezes não está alinhada com a dos adolescentes.
Para descomplicar, foram realizados treinamentos com equipes de três UBS para que abordassem a saúde de maneira mais interativa. A gamificação, uma técnica que usa jogos para ensinar, foi uma das estratégias adotadas. Os adolescentes contribuíram na criação de jogos de tabuleiro com temas de saúde, ajudando a tornar as informações mais atrativas e compreensíveis.
Um dos jogos, chamado “Caverna do Dogão”, apresenta um cachorro-quente como vilão. Os jogadores devem usar ferramentas como escudos e espadas para escapar de alimentos ultraprocessados e bebidas alcoólicas. Outro jogo, intitulado “Dejavú”, aborda a redução de danos, onde os adolescentes usam recursos como preservativos e seringas descartáveis para se proteger de riscos à saúde, enfrentando desafios relacionados ao uso de drogas e infecções.
A ideia é que, ao jogarem, os jovens aprendam sobre saúde de forma lúdica, sem serem forçados a discutir diretamente o assunto, o que torna a experiência mais significativa.
Os resultados iniciais do projeto têm sido encorajadores. Em Paraisópolis, os atendimentos odontológicos também aumentaram em cerca de 5%. Embora ainda não existam dados sobre a fase mais recente do projeto no Campo Limpo, as UBS da área relataram um aumento nos atendimentos de enfermagem.
O relacionamento estabelecido entre os jovens e os profissionais de saúde é considerado crucial para a comunicação eficaz. A gerente de rede de Atenção à Saúde da instituição, Danielle Palacio, destaca que os participantes aprenderam a buscar atendimento nas UBS sozinhos, facilitando o acesso aos serviços de saúde.
O sucesso da iniciativa levou à sua apresentação na 18ª Conferência Europeia de Saúde Pública, realizada na Finlândia, onde atraiu a atenção de instituições de diversos países, como Portugal, Romênia, França e Reino Unido. O projeto também foi publicado no European Journal of Public Health, da Universidade de Oxford.
O “Chega Junto” recebe suporte da Umane, uma associação civil dedicada a promover iniciativas voltadas à saúde. O projeto se destaca como uma referência em saúde pública, mostrando que estratégias eficazes podem ser desenvolvidas para atender as necessidades dos jovens, especialmente em áreas vulneráveis.